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quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Texto Original do Autor Marcos Fabrício Lopes da Silva.

 Fontes: http://www.culturaalternativa.com.br/geral/outross/item/10113-a-mao-de-deus

Segunda, 14 Novembro 2016 16:00

A MÃO DE DEUS*


"Por Marcos Fabrício Lopes da Silva*

"Conforme alertava Nelson Rodrigues: os “idiotas da objetividade” não tem imaginação. Sendo assim, nunca alcançarão a maioridade existencial. Seguindo esse modelo, corremos também o risco de acreditar cegamente que somos “restos sub-humanos de uma grande raça”, segundo a avaliação expressa pelos homens dos Mundos Cósmicos, em O futuro começou (1972), de Isaac Asimov. Na tese debochada de Jerry Seinfeld, presente em O melhor livro sobre o nada (2000), o autor contraria Aristóteles e a sua consagrada tese de que “o homem é um animal racional”, afirmando que há muitas práticas, atestando como os seres humanos não são inteligentes. Como exemplo, Seinfeld revela: “Pelo visto, o que estava acontecendo é que estávamos praticando uma porção de atividades que estavam quebrando as nossas cabeças. Decidimos não parar de fazer essas atividades e inventar um negócio para que pudéssemos continuar a gozar do nosso estilo de vida racha-crânios. O capacete”.
Colocar a nossa cabeça a prêmio, portanto, significa subutilizar o potencial criativo da imaginação, impedindo que a realidade seja mais inventiva. Assim, infelizmente, ignora-se o sábio conselho dado por Celso Furtado, em O capitalismo global (1998): “o fundamental é ter confiança na própria imaginação e saber usá-la”. Faz-se necessário, segundo o economista, combinar dois ingredientes para melhor investigar a realidade e, assim, não reproduzir o saber convencional: “imaginação e coragem para arriscar na busca do incerto”. Aumentando o volume da pressão e da tensão, estamos promovendo o programa de governo chamado “Tesão Zero”. Confundida como castração corporal, espiritualidade vem sendo mal tratada também como dogma. A culpa vem servindo de controle social autoritário, enquanto a responsabilidade se esvai pelos caminhos da omissão do sujeito. O Deus que grita vem triunfando sobre o Deus que brinca de gangorra no playground. 
Minha fé prefere caminhar ao lado de Riobaldo Tatarana, o jagunço filósofo de Grande Sertão: Veredas (1956), obra prima de Guimarães Rosa, para quem, “sem Deus, a vida é burra”. Evoco com mais precisão a fala de Riobaldo: “Como não ter Deus? Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vaivém, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar, é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois no fim dá certo”. Religião é algo que diz respeito à dimensão insondável da convicção espiritual. Mas, sem pretender ferir novamente suscetibilidades, pessoalmente fico com a explicação do mencionado personagem roseano: “Hem? Hem? O que mais penso, testo e explico: todo-o-mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara da loucura”.
Thomas Mann, poeticamente, em Doutor Fausto (1947), chama Deus de “Doador de todos os talentos”. Talento é o que temos de melhor em matéria de luz própria e potência criativa. A verdadeira espiritualidade não nos faz anjos, mas plenamente humanos. A alma é o corpo em festa. Representa o princípio do prazer que fundamenta as melhores realidades. E as melhores realidades têm como sustento a plenitude de nossos sonhos e nossas fantasias. Por isto, Einstein dizia: “A imaginação é mais importante do que o conhecimento”. Paulo Leminski, em Poesia: a paixão da linguagem (1987), projeta instigante maneira de refletir: “o pensamento que alimenta e abastece uma experiência criativa tem que ser pensamento selvagem, não pode ser canalizado por programas, por roteiros, tem que ser mais ou menos nos caminhos da paixão”.
A intuição é a nossa primeira inteligência porque se afirma na sensibilidade tocada pela magnitude dos mistérios da existência. Também é muito libertário acreditar, conhecer e entender o que se passa. A razão é o pouso feito pela ave da emoção. Temos assim as duas paixões fundamentais: a paixão da vida e a da morte – o amor e o ódio. Sabemos que o amor e o ódio são paixões complementares, e aprendemos a ver na ambivalência afetiva o segredo mais íntimo da nossa vida sentimental. Nesse contexto, é bastante oportuna a observação feita por William Faulkner, em Uma fábula (1954): “O mal faz parte do homem; o mal, o pecado e a covardia, da mesma forma que o arrependimento e a bravura. É preciso a gente acreditar em tudo isso ao mesmo tempo ou então em nada. Acreditar que o homem é capaz de todos os pecados, ou de nenhum”. Acreditar, portanto, é inteirar-se para participar ativamente da sinfonia de vontades que compõem o mundo. Sem imaginação, a vida não é verde: é cinzenta. A imaginação não é um plano de fuga, diferente do pregado pelos realistas obtusos de plantão. O que nos anula é a repressão, esse cala-boca que nos impõe a falar somente com os nossos botões. Por isso, “falar equivale a rebelar-se”, com bem nota Faulkner. 
Perguntada se acreditava em Deus, a filósofa Marilena Chauí respondeu: “melhor que acreditar, eu conheço Deus”. Conhecer é tornar o estranho familiar, assimilar para melhor apreciar. Por isso, é chocante o trabalho de certas autoridades religiosas em tornar Deus cada vez mais estranho e distante, aumentando a nossa ignorância sobre Ele. Infelizmente, em um livro chamado A importância de conhecer a Deus (2007), o pastor Silas Malafaia nega a fé instruída: “Ninguém precisa ser profundo conhecedor de eletrônica, fazer um curso de manutenção de informática ou de mecânica de automóvel para acreditar que um aparelho de televisão, um computador e um carro funcionam. O mesmo vale para a nossa fé em Deus!”. A fé não é a falsa consciência, pois, é conhecendo a verdade, que ela nos libertará. E o que é a verdade? É o fruto maduro da imaginação que transforma a realidade em realização. 

* Professor das Faculdades Ascensão e JK, no Distrito Federal. Jornalista, poeta e doutor em Estudos Literários pela UFMG. Graduando em Letras pela UnB. 

Este post é colaboração
Por Marcos Fabrício Lopes da Silva*
Obs. Texto colaborativo. Nao expressa a opinião do site e editores."

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